Entre aspas: Aflição

domingo, dezembro 02, 2012

Créditos: We♥it
De pé, mas querendo continuar deitada a vida inteira, cronometrei o tempo achando que fosse passar rápido, e ao contrário. Nem passou. Levantei, moída na minha infelicidade e incerteza de vida, vejo no espelho um rosto que não me atracava à tempo demais. E por isso, irreconhecível. De baixo dos olhos, duas bolsas grotescas se depositaram em inchaço, e não sei como amenizar essa tristeza das lágrimas, esse trauma que se reaproxima. 

Fiquei tanto tempo na mesmice, que me acostumar com o pouco de felicidade de eu permitia entrar, a cada dia, foi novo, foi completo, e acabou sendo intenso. Pelo menos, para mim. E agora, querem me tirar das mãos pela milésima vez, uma chance, a minha possibilidade, a tentativa que na verdade é uma pessoa, do tipo que não via, nem encontrava há tanto tempo. E olha que rodei na procura, varei noites e dias à dentro, e fui encontrar no lugar mais improvável, a docilidade, o carinho e a atenção, que eu procurava há meses. Saio de óculos escuros na rua, embora pareça não adianta muito - sentem meu desespero nos passos, meu comedimento em fugir do mundo, sem hora pra voltar, lenta no calçadão de quase todos os dias. Eu fico triste e não sei como disfarçar. Coloco a máscara da animada, a maquiagem da harmoniosa, calma e serena, e não funciona. E ouço qualquer música, e choro, choro, choro. Falo e soluço, injuriada com tudo e todos. 

Mesmo que seja por antecipação, a minha ansiedade me faz assim, precipitada em tudo que coloco as mãos, os olhos, ou os sentimentos - o coração. Esse não saber me exaspera mais ainda. Me confunde as ações, me faz não entender os atos alheios, e nem as palavras onde por trás, existem tantos e diversos significados. Até o meio da semana, esse caos. Até não ter resposta, o martírio. Demorei pra achar algo que valesse a pena, e agora tomam, me faz sentir o gosto adocidado de estabilidade, calma e paz, e já dão o aviso de que foi apenas uma prévia, o treinamento para a volta ao inferno. Se soubesse que seria assim, nem embarcava na arca dessa aventura toda, e continuaria na minha vida sem emoções, nem distração. Porque depois de sentir todas as coisas boas, deliciando-se em descobrir o outro, e se encantar nas menores coisas, se adaptar ao simplório, à como se nada tivesse acontecido, me dói, me cansa e já não aguento mais. 

Acendi vela de sete dias, começo a novena hoje, e peço a todos que conheço, que conhecem a minha história, que rezem, que imanem bons pensamentos, que torçam pela minha felicidade! Sabendo ainda, que é difícil, tenho uma pontinha que acredita, que sorri ao pensar na vitória disso tudo. No meu altar, meu arsenal de fé e esperança, faço o meu lado e o possível para que a minha felicidade não pare no tabuleiro, e continue avançando casas, caminhando à frente, ao certo. 

E caso não vingue, já aviso: o panfleto do convento mais próximo se encontra no mural vermelho, em frente de onde agora digito, e ligo mesmo chorosa, quebrada e partida. Quem sabe lá, encontro a salvação, as respostas que tanto tento arrancar do todo-poderoso, e não recebo. Ou pelo menos, paz e estabilidade. Seja o que Deus quiser, mas com uma tonalidade do que eu preciso também.. O caso não é de vida ou morte, mas minha vida, é mais ou menos disso.

Sobre a autora: Conheci os textos da Camila em 2010 por uma amiga, depois disso não parei mais de acompanhar. Sua forma de escrever é única, são textos muito bons, dão inspiração, acalmam a alma e o coração.

Camila Paier é dona do blog Calmila (Calma, Camila). Essa gaúcha talentosa mora em Porto Alegre/RS e é estudante de jornalismo. Você pode acompanhar seu trabalho no Facebook Twitter. Vale a pena conferir os textos dela gente, são muito bons.

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2 Comentários

  1. Oi xará,
    adorei o texto, parece ter sido feito pra mim.
    Beijo ;*

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  2. Amei o texto!! Muito bom mesmo!
    Beijinhos

    Am
    http://www.vinteepoucos.com.br/

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